Quando eu tinha 6 anos de idade levei um trambolhão na praia de Ubatuba e foi a primeira vez que senti medo de morrer. Quando você tem 6 anos de idade, as coisas são muito grandes. Um tombo é questão de vida ou morte, e se você está no mar, com 25 quilos e muita distração, esteja preparado para um maremoto que pode afundar sua história em 30 segundos. Eu fiquei tão assustada com a onda que me pegou que acabei me desesperando sem saber onde estava o chão, o ar, a praia e o guarda sol. Meu corpo simplesmente foi sacudido dentro daquela água violenta e eu senti tanto medo que não consegui nem chorar.
Mas esse texto não é sobre o mar. E não vou falar sobre o hit “Jesus andando sobre as águas”. Vou falar sobre algumas coisas que passamos e sentimos, mesmo depois dos 6 anos de idade.
Aquele dia na praia eu tive medo de morrer, mas a maior memória não foi essa. A marca que aquele dia deixou em mim foi, graças à minha mãe, uma completa sensação de segurança e descanso. Porque depois do trambolhão, do susto, do frio, do cotovelo ralado e da areia no biquini (e no cabelo e nos olhos e na boca e na testa..), minha mãe me lavou com água doce. Me enrolou numa toalha. Fez a “caminha” mais deliciosa em que uma garotinha exausta poderia dormir, e só porque eu descobri que não morri, a vida sorriu de volta pra mim. Eu estava bem. Eu estava com a minha mãe. Eu estava salva, de frente para aquele mar que minutos antes tentou me engolir. E agora, do auge da minha experiência e autoridade infantil, eu mirava o mar e debochava das ondas! Eu me lembro de rir daquelas ondas idiotas porque eu estava segura. Aquele dia eu venci o mar e essa experiência anda comigo até hoje.
Mas você não tem 6 anos de idade. Eu sei. E você talvez nem tenha mãe. Eu sei. E talvez você seja um mergulhador excelente e não tenha histórias fofinhas sobre caudos e caminhas, como eu. Eu sei. Mas você tem histórias, certo? E também tem sustos, certo? E tem coisas que com certeza viveu ha décadas atrás que marcam você até hoje, certo? Todo mundo tem. Nós somos produto das coisas que aconteceram conosco. Ninguém muda o passado. Fique milionário, mude de país, fale outra língua, sua história ainda é sua. O passado não muda. Anda preso nos teus passos. Se você tem medo de alguma coisa hoje em dia, pode ver, deve ter uma explicação lógica no seu passado. Certo. Freud explica. Mas onde Deus se meteu quando alguma coisa se quebrou no seu passado? Onde Deus se enfiou enquanto a vida sacodia seu corpo em águas violentas, ao ponto de você não conseguir nem chorar de tanto susto e medo? Você já se perguntou se não é uma tremenda palhaçada Deus oferecer um futuro legal pra você, sendo que ele poderia ter chegado antes e evitado um passado desastroso? Não seria mais inteligente, Altíssimo Deus? Afinal, quem precisa de frustrações? Quem precisa de erros acumulados em noites em claro, rugas, traumas e sessões de análise? Eu já pensei isso. Já me senti enganada pela minha própria história. Pelo tempo atrapalhado em que as coisas acontecem. Já senti raiva de algumas memórias. E já falei pra Deus, super na boa, sem ressentimento mas com uma certa curiosidade: “Deus, por que teve que ser assim comigo?” ou “Todo mundo vive as coisas bonitinho, e por que na minha vida é tudo mais difícil?”
E é aqui que algumas coisas começam a ficar loucas e ao mesmo tempo muito claras.
Jesus nasceu em condições complicadas. Não tinha casa, não tinha plano de saúde, não tinha nem pai, se você for pensar. Fora isso, na época em que ele nasceu rolava uma perseguição e todos os meninos estavam sendo mortos. Não foi fácil, mas ainda assim as coisas se ajeitaram. Ele nasceu numa noite estrelada, ganhou ouro, mirra, incenso, visita de reis, e daí pra frente deu tudo certo. É, deu. Até certo ponto.
Todo mundo reclama do passado. Todo mundo quer esquecer alguma coisa do passado. Mas você já reparou que na vida de Jesus, o pior estava pra acontecer justamente no futuro? Ele teve perrengues na infância, mas diante do futuro que o aguardava, ele não poderia de jeito nenhum reclamar dos primeiros anos de vida. Todo mundo concorda: nascer numa manjedoura é luxo comparado a morrer numa cruz.
E o que significa tudo isso? Que você e Jesus se desencontraram no tempo? Não. Significa que por pior que tenha sido a sua história e o seu trambolhão, você ainda tem uma vida, e por isso, tem a possibilidade e a esperança de um dia poder debochar das ondas. Mas isso só é possível porque em algum momento, no meio dessa história, entre passado e futuro, alguém te salvou. Alguém te lavou com água doce, enrolou você numa toalha, preparou tua cama. Não sei se você vai entender isso, mas mesmo assim eu vou escrever:
O único ser capaz de mudar a ordem das coisas na sua vida, é Deus. Por que? Porque Deus é o único que não está nem aí para a ordem das coisas! Porque enquanto nós nos aplicamos em nos proteger das consequências das coisas, enquanto tentamos dominar nosso tempo e nossa história, enquanto tentamos educar nossos medos com livros, filosofias e bons vinhos, e tentamos organizar a agenda como se pudéssemos organizar a alma, enquanto tentamos controlar nossas dores e decepções, Jesus se apresenta como um louco, indo contra a lógica, se entregando à uma condição que ninguém deseja, por mais desprendido que seja. Ele aparece se jogando no trambolhão, de propósito. Mudo, obediente à alguma coisa que pra sempre será um mistério e que é traduzido humanamente como amor. Ele andou por aqui, falou sábias palavras, amou inimigos, deu a outra face, conseguiu fazer coisas que tentamos fazer com muita meditação e concentração, mas no final, pra que ele fez tudo isso? Pra morrer numa cruz? Que frustração! Jogou fora toda moral, sabedoria, beleza e energia boa. Jesus era louco a esse ponto? É. Louco por você. Louco para que você perceba que os novos dias estão só começando, porque os dias de trambolhão sem carinho da mamãe, ele já viveu.
Agora aqui, parêntese:
(Entre nós. Jesus não precisava morrer na cruz, né? Ele até falou “se puder, afasta de mim esse cálice”. Ele não era trouxa. O fato de ir calado para aquela cruz fez o mundo achar que ele era um tonto, mas depois, não é de se estranhar esse silêncio? Como alguém aceita uma coisa sem nada em troca? Morreu por morrer? Nem uma grande frase final, pra fechar com chave de ouro? Não. A última frase de Jesus foi “Deus, por que você me abandonou?” Foi a frase mais humana do mundo! Quem nunca falou isso? Mas aí, depois de falar isso, ele morreu. Ninguém foi lá salvá-lo. E hoje, depois de você falar isso, você pode ter uma resposta que prove que Deus não te abandonou. Você pode ouvir Deus falando com você através de um blog, por exemplo. Ou de uma música, ou de uma bailarina, ou através de uma paz, ou através de uma memória, de você com 6 anos em Ubatuba. Jesus morreu para que as outras coisas tivessem vida. Para que a presença divina que existia dentro dele, pudesse viver através de outras coisas. Outras pessoas. Outras mídias, formatos, linguagens. Inclusive, através das suas lembranças!)
Então a situação é essa:
Com o passar do tempo, nós tentamos ficar mais espertos. Sabidos ou sábios, malandros ou macios. Precavidos ou preparados. Nós queremos melhorar, queremos evitar trambolhões. Ninguém quer viver com 6 anos de idade a vida toda. Nós queremos algum dia poder olhar com moral para o mar. E rir na cara do que nos assusta.
Mas Jesus, com o passar do tempo, só se mostrou um cara atemporal. Cada vez mais entregue, cada vez mais decidido a entrar no mar nervoso, e se jogar nas ondas para que você entenda que o tempo não é senhor de nada. Jesus é que é. E que as más lembranças não decidem histórias inteiras, porque a história pode ser transformada. Porque você pode ter uma experiência com um Deus que viveu os dois lados, os dois tempos, e isso, calendário, maré, história ou religião nenhuma podem fornecer à sua alma.
Não culpe o seu passado. Ele faz parte de uma história, assim como o futuro. É o fato contra a fé. O fato oferece experiências. A fé, esperanças. Não esqueça que a fé muda histórias. Não esqueça que Jesus ressucitou.
Você aprende com os trambolhões do passado. Deus frustra o futuro, agindo sem medo e sem limites. E a sua experiência e entrega espiritual íntima, pessoal, mais humana do que nunca, acontece agora, no presente.
Seja lá qual for a sua idade.
*A foto é do incrível artista japonês Hokusai.












