2010
03.09

thinkaboutit

Ok, então você leu o texto aí embaixo e garanto que se sentiu desafiado e até certo ponto, sentiu-se consolado porque Deus realmente tem respostas e caminhos, e você sabe que quando você busca você encontra, e quando você acredita ele não ignora seus motivos, e quando você se achega ele também se achega à você.
Mas eu queria saber:

Ousadia maior não seria ter a coragem de continuar apesar de não saber?
Amor incondicional não seria permanecer apesar de não concordar?

Na bíblia existem centenas de casos, de homens e mulheres querendo entender situações, morrendo por explicações. E também existem aqueles casos “nível 2″, que foram as pessoas que entenderam que Deus não deve explicação de tudo que faz, e de tudo que acontece, e que é mais prazeroso ouvir sua voz do que ouvir uma resposta.

Homens e mulheres que entenderam que ele fala no silêncio, que esperar nele é para os que o conhecem, e que liberdade é você não depender do seu próprio roteiro. Quem sabe você escreveu um livro inteiro de perguntas. Quem sabe você tenha decorado todas elas. Quem sabe você tem pautado seu diálogo com Deus nisso. Quem sabe isso tenha virado um costume rotineiro. Quem sabe você esteja vivendo uma religião ao invés de uma experiência. Quem sabe é por isso que você não tenha se sentido livre. Acredite, por melhor que sejam suas falas, você nunca escreverá tão bem quanto o cara que criou os fatos.

Eu acho que Deus as vezes olha para nós e pensa “Meu filho, desencana!”. Não porque rola um menosprezo, mas justamente pelo contrário: porque isso que você luta hoje não é tudo que ele tem para a sua vida. Porque muito mais ainda pode acontecer e isso inclui mudanças, milagres, transformação no seu caráter, no seu jeito de enxergar a vida, nos seus dias, nas suas tristezas, nas suas mesmices.
Esse é o ponto de maturidade que Deus tem para algumas pessoas. Se não fosse por isso não estaria escrito na sua bíblia que “bom é aguardar em silêncio”, e Deus também não estaria na brisa leve que Elias ouviu, e o Esp. Santo não precisaria decifrar todos os gemidos inexpremíveis de Ana, de tanto que ela chorava.

Esse é o ponto que te coloca no nível 2. Agora você não precisa só de respostas, você precisa da voz. Agora você não depende de informações, porque o que você tem a dizer são palavras muito mais profundas do que perguntas.

É por isso que há momento de falar, e há momento de calar. É por isso que apesar dele construir caminhos no deserto, existe o tempo de ficar no esconderijo. Existe um tempo onde Deus não te dá respostas e você não se cansa dando murros no ar. Existe um momento em que você não precisa entender tudo, porque você já entendeu tudo: questionar a Deus não faz de você um sábio.

Esse texto é quase uma contradição do que foi escrito aí embaixo. Pode ser. Na verdade, você pode estar em dois momentos diferentes. Mas eu acho que esse aqui é o manual para quem deseja o nível dois. Um degrau a mais, uma relação mais íntima que se resolve e se entende sem muitas palavras. É um mapa para quem não precisa parar no meio do caminho para pedir informação, porque agora o verdadeiro Caminho já foi revelado.

Existem coisas que eu não quero entender, porque eu não preciso. As coisas que eu não entendo me aproximam de Deus e me dão pano pra manga para muitos outros assuntos.

Seja livre, não seja chato. As vezes Deus quer conversar sobre outras coisas.
Boa viagem.

Luciana Elaiuy

2010
02.24

quests

Eu não entendo muitas coisas. Um último adeus que não existiu porque alguém se foi, o desejo de tirar a dor do coração de uma pessoa querida que ficou, mas não conseguir, tentar falar coisas que só saem bacanas quando cantadas, explicar para alguém que a vida pede pressa e que existe sim, o bem, e a porcaria do mal.

Eu não entendo muitas coisas, e as vezes isso incomoda. É uma frustração? É uma incapacidade?

O mundo é bravo demais com as pessoas. O mundo contou uma mentira para as pessoas e disse que perguntar “por que” significa ser folgado. Então todo mundo dorme e acorda com dúvidas. Todo mundo dorme e acorda sem boas respostas. Todo mundo dorme e acorda sem conhecer Deus.

Existe uma coisa muito tênue nisso tudo:

Nem sempre perguntar “por que?” para Deus, significa que vc tá revoltado com ele. As vezes, você está realmente perdido! E quem se perde precisa de direções, certo? Quem se perde precisa encontrar rumo. Muita vezes o seu “por que” não coloca em dúvida a bondade e o cuidado de Deus. Na verdade, alguns “por quês” significam “pra onde eu vou agora? o que eu preciso fazer? me ajuda a ver além dessa dor? como eu tenho que viver agora?”

Se suas questões não ferem a santidade de Deus, você tem respostas. Se suas questões são tão sinceras quanto o desejo de um acerto, então você não está falando sozinho. Se suas questões não são curiosidades vazias que vão contra o que Deus é, o que pode fazer, e o que já fez, então você está seguro. Se suas questões não são desconfianças, então você está agindo como filho. Ser filho é aprender.

Muitas vezes o seu “por que” já é a sua resposta. É você dizendo “olha Deus, eu não sei”.

Ontem eu vi a dor na cara de pessoas queridas e perguntei.
Não por revolta, mas por amor, porque a dor também era um pouco minha.
Não por rebeldia ou ingratidão, mas justamente por querer fazer o melhor, por não querer errar. Todo mundo quer acertar, certo?

A resposta que eu tive foi seca de tão certeira: “eu abro caminhos no deserto. No deserto das suas dúvidas, da sua falta de informação, certeza e fé”.

Caminhos no deserto. Pare pra pensar nisso! Caminhos definidos num lugar onde você pode transitar para qualquer lado. Deus faz isso: ele abre caminhos certeiros no meio de imensidões. No meio de situações onde errar pode parecer compreensível.

Se fosse na Av. Paulista você leria placas. Se fosse na Santo Amaro você tomava um ônibus. Se fosse na Sé você ia de metrô. Mas e no deserto? E nas questões que ninguém aparece pra te indicar direção alguma? E na morte? E na falta? E na dor? E na frustração de poder ter sido melhor? E nas crises sem pé ou cabeça? Quando Deus fala de deserto, não acho que ele esteja brincando com os nossos sentimentos, né?

Abrir caminhos no deserto é tão improvável quanto uma dor inexplicável. E é aí que Deus entra e propõe:
Você pode entreter a sua mente com questões sobre a dor. Ou você pode aprender mais sobre como as improbabilidades de Deus são lindas.

A dor existe. Os questionamentos também. Você é uma pessoa que precisa de informações. Mas nunca a resposta vai ser exatamente aquilo que você espera. Vai ser tão estranha quanto um caminho no deserto. Um consolo apesar da dor, uma música que canta o que você gostaria de falar. Deus opera desse jeito, porque se a relação com ele fosse um joguinho de perguntas e respostas a beleza e o mistério dos pequenos milagres não existiriam.

Se você está no deserto, o Céu está bem na sua cabeça. E se você sabe que o Céu é maior que o deserto, não hesite em olhar para cima e procurar por coisas que você ainda não conhece.

O seu “por que” com sinceridade pode abrir caminhos no deserto por causa da fé e da vontade de acertar.
O seu “não sei” desabafado no altar pode conquistar o coração do Céu por causa da humildade de não querer se virar sozinho.

Eu não entendo muitas coisas. A maneira como isso tudo faz sentido é uma delas.

Luciana Elaiuy

2010
02.03

De barro e de propósito.

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Às vezes nascem flores dentro de mim. Muitas delas, planta, flor, de todas as cores, de todos os jeitos, de todos as formas. As pessoas olham e dizem “Deus é realmente muito sabido, muito criativo, muito cheio de idéias e sensibilidades”. Eu fico bonito, as pessoas admiram.
Às vezes outras coisas acumulam-se dentro de mim. Uns restos de moeda, umas bugigangas, umas bagunças, umas tampas de canetas perdidas, chaves que uso muito pouco, recados antigos.
Tem vezes que eu fico no centro da mesa. Visível ou não, como adorno pra qualquer hora, enfeite para a sala onde as pessoas se reúnem, enfeite para o jantar, enfeite para a festa. Fico exposto e pouco admirado, pouco lembrado.
Já quiseram me leiloar, colocando dentro de mim a falsa idéia de que poderiam me comprar a qualquer preço. Já me fizeram pensar que com o tempo eu valeria mais, e que ser sempre o mesmo, sempre igual, me faria mais feliz e me deixaria mais seguro. Já tentaram me limpar e a poeira voltou. Ela sempre volta, ela sempre repousa sobre mim. E claro, já me embrulharam milhões de vezes e colocaram um adesivo escrito “frágil”.

Em todas essas experiências, eu nunca fui eu.

Eu só fui Vaso quando me quebrei. Caco por caco, despencando de mesas, despencando de prateleiras altas. Sem medo, sem polidez, sem o pó religioso que quer me manter intacto. Vasos foram feitos para se quebrar. Vasos foram feitos de barro e barro foi feito pra alguém moldar.

Deus compara pessoas com vasos. Deus sabe que somos vazios. Deus tem conteúdo pra tudo. Não esqueça isso.
E que os cacos se quebrem e se espalhem por não conseguirem conter tanta grandeza, tanta novidade, tanta palavra boa. Deus é incontido, é grande demais para pequenos potinhos, caixinhas antigas, gavetas emperradas, cofres travados. E todos nós somos Vasos a beira de uma queda maravilhosa. Quem pode medir o amor de um coração que se quebra? Quem pode medir a capacidade de se espalhar quando os cacos estão no ar?

Pra você que anda lascado, remendado, colou com superbonder e ficou feio: suas feridas sararão com um remédio que você não conhece. O antídoto do medo é a liberdade. O contrário da dor não é só a cura, mas é abrir-se para ela. Ouça o barulho do barro no chão, ouça alguma coisa ferindo o silêncio, porque o seu silêncio só manteve vazios, e essa não é exatamente a melhor forma de levar a vida, quando sabemos que ainda há espaço para mais.

Quebre-se. Se o vaso não funciona, quebre e deixe o artista fazer outro. De uma vez por todas, ou por milhões de vezes. Não tenha medo de se quebrar para ser melhor.

Seu conteúdo transbordará de um jeito que você ainda não sabe como, mas não precisa saber, porque você é Vaso. Você recebe e fornece. Você precisa sentir a água enchendo, e depois a água ultrapassando as bordas e os limites. E às vezes você precisa quebrar-se inteiro, para ser refeito e perder a água velha, os restos. Você foi feito para viver cheio, ainda que para isso, você tenha que esvaziar-se, quebrar-se.
Quem já foi refeito sabe. E só quem modelou tudo, é capaz de dizer a verdadeira utilidade para isso tudo.
E isso tudo, é você.

@lucianaelaiuy

2010
01.22

Sentado, mas de pé.

sentado, mas de pé.

Hoje, se você for. Você vai chegar, vai sentar, vai ouvir, e vai sair.
Mas quem disse que quando for embora não estará ainda mais de pé, não vá falar e não voltará?

Então se você está sentado agora. Seja emocionalmente, espiritualmente, estanhamente ou cansadamente, venha como estiver, e acredite que dá pra sair de pé. Ainda que vc esteja sentado, ouvindo @madalenago na boa. :)

Esperamos você.
Esperamos sentado. Mas de pé.

abs.

@lucianaelaiuy

2010
01.15

a carta, o cão, o selo.

selo

Pra não ser mais um post, resolvi postar uma coisa confidencial, correspondência alheia, mas que pode servir pra alguém com dor, raiva, dúvida, solidão, e curiosidade, por que não!?
*mas leia ouvindo isso.

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Oi,
eu ia te responder um email enorme, mas depois eu li tudo e apaguei. apaguei porque eram questionamentos meus e coisas que Deus tb tá tratando. só posso te dizer (e posso mesmo, porque vc é minha amiga/irmã), que muitas vezes odeio ter que estar pronta, como se isso fosse um requisito. odeio ter que estar resolvida e aberta para as coisas, justamente porque não quero parecer uma hipocrita, não quero mentir pra Deus, não quero mentir pra mim.. e eu tb choro, sabe? mas pior ainda, é quando eu não consigo chorar.
mas sabe o que DEUS me disse quando eu ouvi essa música? ele disse:

“quem falou que vc precisa estar em movimento o tempo todo?”

e aí o nó na minha garganta apertou, porque as últimas lembranças que eu tinha do altar era eu pedindo alguma coisa. as vezes até agradecendo… mas fazia tempo que eu não ficava lá só porque lá é bom. o altar é um lugar gostoso de ficar, e eu tava transformando ele numa sala de espera entediante, porque eu tava me relacionando com ele através de coisas que eu queria ver, coisas que eu queria mudar, revoltas (ainda que verdadeiras!), impaciências, desânimos.

e sabe o que Deus disse?

“cala a boca e fica aqui um pouco. vc consegue?”

e sabe o que eu respondi?

“spirit, fall fresh on me…”

sabe, a alma é um cachorro com fome, mas quem decide a comida e a hora de parar de latir ainda somos nós. é um exemplo freak, mas às vezes vejo a alma assim. pode dar medo, pode irritar, pode ser sua inimiga, mas a gente ainda pode levar ela pra passear no altar.

bjs!

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@lucianaelaiuy

2010
01.08

Pra começo de conversa.

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2010
01.04

what a hell!

umpontoum®

É engraçado ver como antigamente a religião/religiosidade/religiosos faziam besteiras e acreditavam em coisas que mais pareciam com superstições e manias vazias do que qualquer outra coisa. É realmente engraçado pensar em certos costumes e raciocínios usados burramente, e achar que isso seria a solução e o caminho mais sincero para conhecer Deus melhor.
Mas eu andei pensando bastante sobre isso nos últimos tempos. Em como a religiosidade não é mais a saia no pé, o hinário na mão, o jeito de falar e de orar, a coisa cafona, a roupa feia e aquela sensação estranha que todo mundo já teve ao concluir internamente: “puts, eu sou crente e agora vou ter que andar com esses caras!”.

Na verdade, a Religiosidade deixou de ser isso, e se você quer saber, todos esses exemplos foram apenas tentativas “lights” da religiosidade fazer alguma coisa na vida das pessoas. A religiosidade, como deve ser conhecida nua e crua, diante de anjos e demônio e sei lá mais o que, é uma coisa muito mais profunda do que hábitos, casca, estática. A religiosidade tá aí única e exclusivamente para fazer você se esquecer de quem você é, de quem você pode ser em Deus, de quem Deus pode ser em você, e o que isso pode significar para os outros.

Em outras palavras: A religiosidade não quer que vc seja você mesmo, mas você só consegue entender isso quando cai a ficha de que “ser você mesmo” é muito mais do que fazer o que você tem vontade.

Sabe, se você pensar em pequenos atos, detalhes corriqueiros, é como se Deus estivesse numa boa. Pronto pra te ajudar e querendo te falar coisas novas. Mas aí, só o fato de você não se abrir para isso, faz você perder a chance de viver plenamente. Sabe o que isso significa? Que você não está sendo quem você deveria ser, não está usando sua real capacidade como ser humano, e se você não está sendo você, sinto dizer, mas se você não está sendo você, na plenitude, então você está sendo um religioso! Talvez não nas roupas, mas na disposição. Talvez não nas palavras, mas na intenção, nas suas histórias, nas suas atitudes.

Uau! Mas como assim?
Pois é. Já foi o tempo em que ser religioso era proibir ou não ter tatuagens. Agora a religiosidade é moderninha, sabia? Usa até piercing, tem banda de rock, se depilou e é super antenada a tudo! Ela sabe falar em línguas, ela sabe todas as músicas, ela até fala de Deus num tom bacaninha, mas sabe de uma coisa? Ela nunca se derramou em Deus. Ela nunca se jogou sem medo. Ela nunca chorou. Ela nunca disse “Deus, melhor você me mudar nisso e naquilo porque desse jeito eu não te agrado”. A religiosidade é a nova distração dos menos atentos. Dos que preferem comodismo ao inconformismo. Dos que preferem manias às mudanças. Dos que preferam a dor ao Deus que entende de dores.

As vezes nos acostumamos com aquele velho conceito de religiosidade porque pode parecer mais simples enxergar assim, né? Seria fácil demais achar que ela não está dentro de nós. Achar que essa atrevida é apenas uma má interpretação das coisas. Mas os dias são maus, e os seus inimigos querem que você se afaste de Deus a qualquer custo. Para isso eles otimizaram os serviços, modernizaram tudo. Eles vão falar a sua língua para afastar você da única coisa que eles não conhecem:

o amor.

A religiosidade não conhece o amor porque é só assim que você se aproxima de Deus. Por amor você deixa ele te moldar, por amor você não precisa ser a pessoa mais incrível do século, por amor você se doa, se derrama, se entrega, fala, muda, paga o preço para ser melhor, renova suas forças, acredita e entende que ser você, é acima de tudo, ser o que Deus quer que você seja.

Os religiosos gostam de escrever seus próprios roteiros. Suas reações não são novidade, ainda que a cultura, os modos e as modas mudem. Mas que hoje, você beba o antídoto, que é o amor. Que hoje você perca sua educação besta e a sua religiosidade, e invada a presença de Deus com coisas improváveis, que estejam fora desse script sem graça. Pode ser um choro, pode ser uma reclamação, pode ser um silêncio, pode ser qualquer coisa que sinalize seu interesse em Deus. O real interesse, não esse interesse superficial de uma pessoa que ora em troca de favores divinos.

Derrame-se em Deus. Na alegria, no perdão, no recomeço, na esperança de dias melhores, nas curas, nas palavras, no “Face to face”, no privilégio de conhecer esse caminho, nas dores, nos medos. Você foi criado para isso, e esse é o único jeito de tornar-se irreconhecível aos olhos da religiosidade.

Luciana Elaiuy

2009
12.13

realism

Essa é a história de alguém que venceu montanhas e ultrapassou os maiores obstáculos que a natureza poderia colocar na frente de seus passos. A história de alguém que lutou e não teve medo, não teve azar, não teve fracassos, não teve erros.
No topo de tudo ele viu que tinha subido o bastante pra se sentir contente. No cume do monte ele se sentiu seguro o bastante pra poder descansar, mas não sei, depois que se sentiu maior do que os quilômetros e altitudes, depois de provar-se bom e ainda sentindo os músculo de seu corpo pedindo por um conforto pós-guerra , ele olhou pálido e não conseguiu chorar. Suspirou cansado mas não conseguiu expirar uma satisfação maior do que os pulmões.
Essa é a história de alguém que lutou por não se sabe o que. Alguém que tinha um grito de guerra mas não tinha um motivo, alguém que esticou os músculos e soltou seus gritos sem antes ter um nó na garganta. Gritou por gritar, não para desatar os nós. Lutou por lutar e não por ver nisso a questão que poderia mudar a sua vida.

Essa é a sua história?
Chorar por uma coisa mas no fundo saber que ela não mata a sua sede?
Brigar por uma coisa mas no fundo saber que ela não te fortalece?
Desejar muito uma coisa mas no fundo saber que ela não é assim tão necessária?
Falar muito de uma coisa mas no fundo saber que ela não prestaria muita atenção na sua voz?

Isso as vezes acontece. Nós até lutamos, mas falta motivo real. Nós choramos mas falta desabar e desabafar de vez. Nós sonhamos mas falta acordar e dar o primeiro passo. Nós amamos mas falta se entregar. Nós não temos medo da guerra, nós até sofremos algumas feridas, mas mesmo assim, no final, falta sangue.

É uma situação bem aflitiva viver nesse planeta cheio de coisas lindas e horríveis e ainda assim ter a sensação de não estar sentindo tudo, né? Afinal, você nasceu com os 5 sentidos, você ouve coisas, vê, toca, come, cheira, canta coisas bonitas que podem até deixar você arrepiado, emocionado, motivado, mas mesmo assim falta voz. Por que será que nunca é o bastante? Por que será que ficamos tão anestesiados de uns tempos para cá?

O dinheiro responderia à essa questão dizendo que agora você tem modos. Os seus amigos diriam à você que você está apenas passando por uma fase difícil. Os filmes alimentariam a sua insatisfação, os livros pareceriam longos demais para tentar te explicar. A religião deixaria isso tudo ainda mais complicado. A segunda-feira diria para você desistir. O seu amor diria que você anda estranho, você poderia pensar que é um tipo de solidão, e ao contrário do que todos pensam, eu acho que Deus diria apenas uma frase: “falta sangue”.

Eu sei porque ele diria isso.

Ele diria porque ele é exatamente o oposto do cara do primeiro parágrafo. Ele jamais subiria uma montanha por subir, ele jamais viveria por viver, ele jamais falaria para quebrar o silêncio, ele jamais gritaria se não houvesse um nó em sua garganta, ele jamais morreria sem um motivo. Vê, Deus soube aproveitar a vida melhor do que qualquer pessoa na face da terra. Mais do que os heróis, mais do que o grande vencedor do primeiro parágrafo.

Deus não assiste, Ele sente.

E é por isso que eu digo, que ele diria “falta sangue”. Porque foi justamente por isso que ele subiu montanhas, fez seu corpo se cansar. Foi por isso que ele desatou os nós na garganta e gritou quando teve vontade. Foi até o sangue, porque ele saberia que cedo ou tarde alguém teria o desejo de sentir-se vivo e não encontraria essa essência nas próprias veias.
Deus deu o sangue porque dar explicações cansa. Deus deu o sangue porque dar apenas emoções, frustra. Deus deu o sangue porque é no sangue que mora além da sensação, o sentimento. Deus deu o sangue porque sem ele o coração que você tem bombaria apenas ar, e as suas veias ficariam entupidas de vazio. Então você respiraria incertezas, falaria coisas vagas e viver seria uma desconfiança diária do que é real ou não. Deus deu o sangue porque as pessoas precisam sentir o que ele sente: a vida apesar de tudo. a realidade apesar da dúvida. o sentimento apesar das sujeiras. a presença apesar dos corações de pedra.

Que hoje você possa subir montanhas, e que amanhã você ainda sinta que as suas veias merecem muito mais do que o êxito. Que você sinta Deus e não se sinta Deus. Que você sinta o topo, mas que ainda seja capaz de desabar na dependência de quem um dia desabou de amores por você.

Luciana Elaiuy

2009
12.07

noites de sex.

MUDOU DE DIA, MUDOU DE HORA, MUDOU PORQUE SIM, UAI!
AGORA É TODA SEXTA, ÀS 22H NA AVENIDA DOS IMARÉS, 64.

imarés, 64 • nas noites de sexta.

2009
11.25

As coisas do alto

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Não, eu não sou a única pessoa que passou por esse blog e que pelo menos uma dúzia de vezes na vida achou bem complicado conciliar as coisas superiores com as coisas terrenas. Quando eu falo coisas superiores, eu falo desse lance de você pensar um pouco mais em Deus, tentar ficar mais “zen”, se importar com coisas mais nobres, entender que nem tudo precisa ser uma sangria desatada. É realmente difícil você viver num mundo onde o seu próximo não se alegra com as suas vitórias, e ainda assim, levar uma vida ligada “nas coisas do alto”. Aliás, o fato de Deus estar no céu muitas vezes faz com que a gente sinta ele distante. É ou não é? Eu tenho certeza que eu não sou a única pessoa que sente isso.
Ok, Deus está dentro de nós, ele se move através de nós e coisas boas acontecem, mudanças, milagres, transformações mesmo. Mas eu confesso pra você que as vezes é bem complicado pensar em Deus e em sua infinita luz, quando o perrengue tá comendo solto aqui embaixo, na rotina cansada de nós, meros mortais.
Ainda assim, não me parece uma sacanagem a recomendação de colossensses que diz “pense nas coisas do alto”.
Eu fico pensando nisso, e não há como não ser paradoxal. É quase aflitivo lidar com situações humanas como dores, faltas, invejas, necessidades, vinganças e medos, e ainda ter o dever de pensar nas coisas do alto. As vezes dá vontade de falar para Deus “pô, não vê que eu já me ocupo demais pensando e tentando resolver a minha vida e os meus problemas enquanto você me pede pra pensar em coisas do alto que mais parecem uma espaço virtual de emoções do que um mundo espiritual?”

Por que será que a gente coloca tanta palavra e opinião nas coisas que não precisam disso?

Quando você lê “pense nas coisas do alto” a mensagem não é de maneira alguma uma recomendação para que você se torne um alienado com torcicolo, de tanto olhar para cima.

O que a bíblia quer dizer afinal?

Quer dizer que pensar nas coisas do alto te ajuda a resolver as coisas de baixo.
Quer dizer que pensar nas coisas do alto é útil para que você não gaste todos os seus sentimentos com coisas baixas, prováveis, iguais, terrenas.

Mas o melhor de tudo, é que essas tais coisas “do alto” não são um passatempo criado por Deus para que você consiga pelo menos uma vez por semana esvaziar a sua mente. Não! Pensar nas coisas do alto é só pra quem sabe que no alto acontecem coisas que aqui embaixo não acontecem.

Quem pensa no alto tem sempre pra onde ir, porque do alto é que vêm os caminhos que Deus cria. Pensar nas coisas do alto é ter afinidade com Deus. Uma afinidade tão grande, que você pode até continuar andando por aqui, com os pés no chão.

Ele desceu para aqueles que têm medo de altura. E subiu para aqueles que querem saber como caminhar aqui embaixo.

Luciana Elaiuy